Lá no sul do alambrado [*]
[*] 1º Lugar na categoria poesia no Talentos Fenae/Apcefs 2020 etapa estadual.
É largo o verde da travessia,
Que a cena do pampa modela,
O tempo fecha a cancela,
E o vento Pampeiro anuncia,
Uma noite de estrela-guia,
Nos acordes de uma guitarra,
Saltam da mata em algazarra,
Milongas e versos americanos,
Que “Por el correo temprano”,
Vive na voz de Violeta Parra.
Tenho um tronco Maragato,
E uma existência aragana,
Na peleia da sina veterana,
O meu lenço é o fogo-fátuo,
E o fio-de-bigode é um trato,
Pra quem troteia no Pampa,
A voz clama e se agiganta,
E vara rincões e aramados,
No rio soturno dos afogados,
Afoga mágoas, afina a garganta.
Estou liberto do mapa,
Das divisas e do varzedo,
Dos riachos e do arvoredo,
Onde a cor do lenço retrata,
O canto do cardeal na mata,
Um rito campeiro de louvores,
Vem do encanto os olores,
Na voz de Jayme Caetano Braun,
E no canto de Facundo Cabral,
Vou no rastro dos payadores.
A minha vista rasga o céu,
Na “zamba de mi esperanza”,
Nos olhares de uma criança,
E nas bordas do meu chapéu,
O pôr do sol é um fogaréu,
Que minha alma extravasa,
Nas platibandas das casas.
Do pampa eu sou prisioneiro,
Deixei rastros de um braseiro,
E sonhos dormentes na brasa.
A vida é um sopro do Minuano,
O tempo é um barco à deriva,
Vou em frente com a mente altiva,
Esquivando os pealos dos anos,
E assim eu não me engano,
Circundo as fronteiras do pago,
E na América me resguardo,
Num encontro com Cenair Maicá,
É vermelho o meu lenço acolá,
Distante... lá no sul do alambrado.
O meu horizonte é austral,
E a outra margem é infinita,
No ventre desta terra bendita,
No recanto de Gabriela Mistral,
Numa querência meridional,
Sou um gaudério abandonado,
Um xiru dos quatro costados,
Tropeando desde noventa e três,
Deixei serena a minha tez,
Distante... lá no sul do alambrado.
Nas andanças nestes quadrantes,
Sorvo mate com Yupanqui e Zitarrosa...
...Victor Jara e Mercedes Sosa.
Nos poemas de versos viajantes,
Sob um teto de estrelas brilhantes,
Foi-se a distância num mate lavado,
Sigo levado pelas plagas do amargo,
Dedilho notas de Noel Guarany,
E os versos vagueiam por aí,
Distante... lá no sul do alambrado.

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