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Mostrando postagens de dezembro, 2023

O sonho de Carlito sem chão [*]

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* 1º Lugar no Talentos Fenae 2021 – Etapa Estadual – Categoria poesia Nasceu no lombo do vento, Numa manhã de primavera, Contando velhas quimeras, Hoje vive no vago relento. Neste tosco acampamento, Numa rua mundo afora, O horizonte foi embora, Deixou encilhado o pingo, Numa tarde de domingo, E na vida bateu esporas.   Carlito sonhou com la sierra, Ao lado de Che e Fidel. Num galope de corcel, Fez a paz e fez a guerra. E a sua vida encerra, Restos de uma utopia, Revira frangalhos nos dias, Num andar complacente, Vai num tranco o vivente, Que a indiferença vigia.   Sob o manto do céu azul, Numa noite de estrelas, Querendo eternamente vê-las, Com Camilo e com Raul, Foram às bandas do sul, Atrás da alma centelha, Tremula a bandeira vermelha, Com ganas de índio pampeano, Na cauda do vento aragano, Ou na cancha reta parelha.   Carlito reviveu Camilo, A vida melhor para o mundo, Fez das horas um segundo,...

Entre o céu e o chão da querência [*]

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[*] Classificada para o 7° Candieiro da canção e da poesia de Uruguaiana 2023.   Sou desatento da geografia, Da pampa sem sentinela, E da fronteira sem tramela. Tranquila a vida seguia, O quero-quero anoitecia, Cânticos no céu da querência. Num clarão da existência, Das mágoas que sofro calado, Junto ao lenço colorado, Guardião da minha essência.   Colhia pitanga nas tardes, A china sempre ao meu lado. Num rincão arredondado, Pelo infinito da imensidade. No céu hay muitas verdades, Que nos distancia da infância. E sorvia léguas de estância, Afogava os sonhos na sanga, Mas a chuva no céu desanca, Estimula sonhos de ausências.   Tenho um peito vermelho, E a alma castelhana. A minha sina aragana, Trago de muitos rodeios. Porque o futuro é o espelho, Nas águas de uma lagoa, E lá que o andejo ressoa, E onde a vida é mais densa. O reflexo da pampa imensa, Na coplita charrua que entoa.   Estou liberto...

As flores

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Há um agradável perfume no ar. Um estranho cheiro de terra, de relva e de mar. São flores que desabrocham nos mais diversos lugares. São girassóis, margaridas e camomilas ao sol. São rosas nos pomares. São pétalas esparramadas aos cuidados dos nevoeiros das primeiras horas.   Há uma essência de flores na cidade. Múltiplos aromas que exalam cheiros de todas as idades. É um cheiro de crianças que imploram trocados nos cruzamentos. É um cheiro de mulheres que rogam por seus rebentos.   Nesses dias que antecedem o inverno, temos aromas de antigos amores nos catres vazios. Esses dias preenchem os sonhos com perfumes ausentes. E proliferam cheiros de jovens amantes. É alguma coisa delirante. Imprudente. É um cheiro de atrevimento e contestação.   A cidade está impregnada pela essência de trabalhadores que assentam ilusões. Que contam segredos e fogem dos medos quando o sol se põe. É um perfume de mulher...