Entre o céu e o chão da querência [*]



[*] Classificada para o 7° Candieiro da canção e da poesia de Uruguaiana 2023.

 

Sou desatento da geografia,

Da pampa sem sentinela,

E da fronteira sem tramela.

Tranquila a vida seguia,

O quero-quero anoitecia,

Cânticos no céu da querência.

Num clarão da existência,

Das mágoas que sofro calado,

Junto ao lenço colorado,

Guardião da minha essência.

 

Colhia pitanga nas tardes,

A china sempre ao meu lado.

Num rincão arredondado,

Pelo infinito da imensidade.

No céu hay muitas verdades,

Que nos distancia da infância.

E sorvia léguas de estância,

Afogava os sonhos na sanga,

Mas a chuva no céu desanca,

Estimula sonhos de ausências.

 

Tenho um peito vermelho,

E a alma castelhana.

A minha sina aragana,

Trago de muitos rodeios.

Porque o futuro é o espelho,

Nas águas de uma lagoa,

E lá que o andejo ressoa,

E onde a vida é mais densa.

O reflexo da pampa imensa,

Na coplita charrua que entoa.

 

Estou liberto deste mapa,

Das fronteiras e alambrados,

Ando além do chão colorado,

Onde a minha vista derrapa.

E nem a vertente farrapa,

Ou peleias de noventa e três,

A gravata é um dos clichês,

Da mão que empunha a faca,

Seja ela raivosa, forte e fraca,

Degola a garganta e a lucidez.

 

Dos cercados não sou prisioneiro,

Nem quando a coragem desanda,

Já adormeci na varanda,

Ou no aconchego dum braseiro.

Mas abandonei o último posteiro,

E dei adeus as rosas no jardim,

Por isso a trote vivo assim,

No rastro dos dias e das horas,

E nem o vermelho da amora,

Trouxe o gaucho adormecido em mim.

 

Tempo: uma barca à deriva.

Foi-se o passado em rio profundo,

Me vejo peleando pelo mundo,

Pois sou o derradeiro conviva,

Na gana da busca obsessiva,

No longo andejar dos anos,

Emoldurado pelo vento pampeano,

No tempo que não volta mais,

Neste chão somos todos iguais,

Sendo posteiro ou aragano.


 

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