Um poema... lá no passado! [*]



Na ausência da pampa singela,

Bate a saudade campeira.

E no mate com erva-cidreira,

Na memória o retrato dela.

E a luz do tempo amarela,

Liberta meu olhar reprimido.

O manto farrapo descolorido,

Que conduz a minha vivência,

Traz no cerne a querência,

Do sonho que tenho perdido.

 

Chove um silêncio na cascata,

Fugidia no meu pensamento.

E a bruma vem com o vento,

Numa noite que me maltrata,

Colho as pitangas na mata,

Nos desejos de ocasião,

E o vermelho do meu rincão,

Traduz na minha atitude,

Certezas de longitude,

E a trote vai meu coração.

 

Comigo na vida... a prenda,

Pra buscar noites futuras,

Adiante lindas planuras,

E um olhar de reprimenda.

O instinto me recomenda,

Essa façanha miragem,

De várzeas, pagos e paragens,

Um canto lindo e certo,

E gente querida por perto,

E uma luzidia paisagem.

 

Trago comigo o amargo,

Nas manhãs do meu inverno,

O chimarrão roda eterno,

Nalgum recanto do pago,

Que é azul, verde e largo.

Neste matear despacito...

As lembranças vêm do infinito,

Nos acordes de sofreguidão,

Que palpitam notas de solidão,

De um longevo piazito.

 

Nesse galpão de concreto,

Numa avenida insana,

Melancolia mundana,

De um posteiro incerto.

Tenho nas lonjuras um teto,

Pra ser taura mundo afora,

Abandonei distante a espora,

Na alameda sul da história,

É chamamento da memória,

Do chão que não piso agora.

 

Não vejo os verdes trigais,

E nem o gado no campo,

Nem a luz dos pirilampos,

Nas noites dominicais.

Os anos não voltam mais,

Por isso sigo aprisionado,

Com a cuia e lenço colorado,

Num silêncio lento e perverso,

Eu deixo falquejado o verso,

De um poema... lá no passado!

 

[*] Finalista no 8º Concurso Literário Cidade do Penedo de Poesia e Conto – 2022

 


 

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