O sonho de Carlito sem chão [*]


* 1º Lugar no Talentos Fenae 2021 – Etapa Estadual – Categoria poesia


Nasceu no lombo do vento,

Numa manhã de primavera,

Contando velhas quimeras,

Hoje vive no vago relento.

Neste tosco acampamento,

Numa rua mundo afora,

O horizonte foi embora,

Deixou encilhado o pingo,

Numa tarde de domingo,

E na vida bateu esporas.

 

Carlito sonhou com la sierra,

Ao lado de Che e Fidel.

Num galope de corcel,

Fez a paz e fez a guerra.

E a sua vida encerra,

Restos de uma utopia,

Revira frangalhos nos dias,

Num andar complacente,

Vai num tranco o vivente,

Que a indiferença vigia.

 

Sob o manto do céu azul,

Numa noite de estrelas,

Querendo eternamente vê-las,

Com Camilo e com Raul,

Foram às bandas do sul,

Atrás da alma centelha,

Tremula a bandeira vermelha,

Com ganas de índio pampeano,

Na cauda do vento aragano,

Ou na cancha reta parelha.

 

Carlito reviveu Camilo,

A vida melhor para o mundo,

Fez das horas um segundo,

Lutou com bravura e estilo,

Foi da liberdade um pupilo,

Um solidário guerreiro.

Na pampa se fez por inteiro,

Numa cavalgada tobiana,

Que faz da vida mundana,

Várzeas de paz num luzeiro.

 

Carlito... andarilho e mendigo,

Vazio de querência e chão,

E traz no seu coração,

Saudades de um olhar antigo,

E procura um ombro amigo.

Carlito segue claudicante,

Não vê horizontes adiante,

Na paisagem cinza da tarde,

E o coração valente arde,

Na sina de andar errante.

 

Carlito bateu à porta,

Pedindo socorro pra fome,

Que na vida se consome.

Quem ajuda? Quem importa?

Aquilo que se transporta,

Num cálice de vinho branco,

Reflito... reflito... e estanco...

Nas páginas de um jornal,

Que plana no vento matinal,

E aquece Carlito num banco.

 

Na longa vida judiada,

Cada qual tem sua hora,

Que por sua sina chora,

Um homem de voz calada,

Cabisbaixo na calçada,

A lágrima cai na avenida,

Vai Carlito da sina dormida,

E com o seu prato vazio,

Chorando as lágrimas do rio,

Curvado diante da vida.

 

Sumiu das ruas o Carlito,

Neste mundo medonho,

E o seu jeito tristonho,

O seu andar despacito,

Com isso vê lá no infinito...

A luz que a gente sente,

E o olhar complacente,

Cruzou trilhas e regatos,

E foi o derradeiro ato,

Uma silhueta de sol poente.

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