Bumbos [*]

[*] 2º lugar na categoria poesia – 1º Concurso literário de prosa e poesia – Centro Comunitário de Inserção de Cáritas Diocesana de Coimbra.

 

Bato bumbos nas varandas do passado.

Monto em pelo num cavalo alazão.

Vide a guerra que desponta na adaga.

Brilha o sol e a fronte engole o chão.

 

Sob um céu e entre muitos luminares,

Sangro sulcos nos bumbos dos quilombos.

Vasto solo neste globo de lugares,

Universo nessas noites dos assombros.

 

Vãs oferendas de crenças e santos,

Cruzam as águas e salgam os mares.

Rogo aos céus o recado de meus prantos,

Na certeza franca de inocentes olhares.

 

Traços rijos de um continente africano.

Curvas de nível nas veias do braço.

Sofro chibatas nos meus desenganos.

Bumbos e sonhos num triste regaço.

 

As flores brotam no verde do quintal,

Da utopia, liberdade e esperança.

O punho erguido vibra num ritual,

De um povo que caminha e avança.

 

Estes tempos pedem outras teimosias,

E cantos livres que modificam olhares.

As flores clamam nomes em sincronia...

Tia Ciata, Dandara e Zumbi dos Palmares.

 

Um compassado recital de tambores,

Em notas francas de forte turbulência.

Tropilha de bumbos em sete cores,

No jardim florido da resistência.

 

Os perfumes destes anos são amores,

Nos passos firmes nas ruas e nas praças.

Na alvorada destas flores os sonhadores,

Entoam o canto e o universo que enlaça.

 

Nas desarmadas quimeras de agora,

Ecoam gritos como balas em tiroteio.

Um verso cinza num poema que chora.

E um livro antigo que eu ainda releio.

 

Capital filosofia para os trabalhadores,

No lento folhear das entrelinhas.

Vão os passos marcando os corredores,

E que não mata a chibatada daninha.

 

Seguem os bumbos batendo consciências,

Desfazendo os eternos e dados conceitos.

Golpes nos bumbos da nossa existência,

Batidas que retumbam em nosso peito.

 

Os bumbos evocam a negritude que abraça,

E descarta o ódio e desarma a censura.

Exalta a epiderme negra da raça.

Proclama o riso e o fim da clausura.

 

Batidas de bumbos é a paz entre iguais,

E sons que batucam no coração que encerra,

Liberta o silêncio dos velhos baguais,

É bandeira desfraldada na face da Terra.


 

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