A pena que abraço
Com a pena desfaço conceitos,
Das palavras prontas e certas,
Traço livre na voz que liberta,
Verso preso dentro do peito.
Clausura da mente que rejeito,
Onde singra um sinal de agonia.
Com a pena disserto utopias,
Na amplidão do céu cintilante.
Resistência reúne os andantes,
Soma de sonhos e democracia.
A pena afeta o dito e o não dito,
Destrói a censura e fios do aramado,
A pena é um grito de punho cerrado,
A alma lavada do oprimido.
Um poema ainda a ser escrito.
Provoca luz em noites infindas,
A pena exalta as idas e vindas,
... e o silêncio num quarto fechado!
O grito de horror no chão colorado,
Descreve a noite que avança e finda.
A pena liberta os lábios da mordaça,
E alivia as dores na cela que encerra,
Ergue as bandeiras nas ruas da Terra,
E descarrega o ódio de raça.
Proclama a liberdade na praça!
A pena abraça o sentimento profundo,
E traz aconchego aos olhos imundos,
E o sorriso singelo ao velho da esquina,
A voz que agita o povo e anima,
As passeatas para mudar o mundo.
A pena abraça o perfume da flor,
Traduz em pétalas as cores da vida,
Retrata a pura emoção sentida,
Em notas alegres do sabiá cantor.
E estampa no gaúcho sonhador,
O sol poente na lâmina da história,
Com a laranja na tarde migratória,
A pena desliza em traços “calientes”,
Iluminando os sobre... viventes.
Dos heróis e heroínas na memória.
A pena retrata o passado e o presente,
O começo e o fim das dores,
E o cheiro da terra nos corredores.
O canto galponeiro que a gente sente,
O horizonte tão perto e tão distante,
A pena refaz antigos conceitos,
E traz na história os arreios desfeitos,
Dos desafios na ponta da adaga,
Na água que o braseiro apaga,
Nos ideais de antigos preceitos.
A pena de um traço leve e certeiro,
Numa página vazia da vida,
Acalma a veia que pulsa atrevida,
No peito maragato do campeiro,
Num galpão de fraco luzeiro,
A pena é um chimarrão solitário.
Num facho de lua como cenário,
No calmo e tranquilo rodar das horas,
Neste instante as mágoas vão embora,
Como galope do Sepé legendário.
A pena aplaude a voz que acerta,
E rechaça o ódio que afronta,
A voz que agride, a arma que aponta.
Reflete a voz que liberta!
Num leve balanço de luz que alerta,
A pena aproxima a distância e abraça,
O suco rubro que transborda na taça,
As pegadas na areia e a mão que abana,
O verso consciente e o sonho que flana,
Grito de liberdade na praça!

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