Reminiscências diante da cuia
Chimarrão fecha a cancela
Na fronteira insana das horas
E os primeiros raios de aurora
Um lamento que a cuia libera
Pra matear com a ausência dela
Nas poucas manhãs de enlevo
Faço uma prece ao Nazareno
Com a cuia em outras jornadas
Ao longe a poeira da estrada
E o meu rancho fica sereno
Volto para outras lembranças
Contornando as curvas do tempo
E as estrelas em alinhamento
Na memória o sonho descansa
E no horizonte a vida balança
De um chimarrão de outras eras
Na bomba do amargo o quera
Reponta amores de outrora
Os olhos negros de amora
Me transportam à presença dela
Coloco mais água na chaleira
E quem transborda é a memória
Que vagueia no tempo aleatória
Um mate na sombra da figueira
A paz do campo e a companheira
Amiga, parceira... e amante
Que tinha um sorriso radiante
Debaixo daquela sombra fatal
A quieta graça sentimental
Da cuia que me deixa distante
Diante da bomba “caliente”
Repenso meus novos fazeres
Repasso meus antigos pesares
Contemplo-me na paz silente
Noutro tempo que alma sente
Em heroicas peleias passadas
Com esta cuia amargurada
Sorvo longos goles de solidão
E a morna cuia na minha mão
Repousa na estampa encarnada
Estou no cerne do nada
Cheio de vazios e ausências
E as minhas reminiscências
Numa trágica noite enluarada
Mateava com a minha amada
Num tempo de desenganos
Renasço no meu jeito paisano
E um trago junto ao chimarrão
Uma lágrima ofusca a visão
No tênue andejar dos anos.
Um braseiro ficou no passado
E faltou erva e água na cuia
Senti saudades daquela xirua
Quando vivia arranchado
Com a prenda do meu lado
Então, revolvo meus silêncios...
Reverencio as bordas do lenço
Maragato por opção e essência
Pois, distante ficou a querência
E um mate que agora... dispenso

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