Maragato em noites de prata [*]

 Integrante do e-book do 1º Concurso Nacional de Poesias Oracy Dornelles

– Casa do Poeta de Santiago – RS.

 

O meu chimarrão é virado

Com a cuia xucra dos dias

Num domingo de ventania

O meu churrasco é salgado

E o coração mal-domado

Porque esta rima é incerta

E um clarim me desperta

Nessa querência pampeana

Eu levo a vida aragana

Numa porteira entreaberta

 

Trago verdades feridas

E um longo aceno perdido

Na manhã de um jardim florido

E com a rosa vermelha parida

Deixei a boina basca puída

Porque eu vivo num tranco

E dando murro em barranco

Eu perdi o encanto criança

Porque a minha vida balança

Peleando no ferro branco

 

Eu sou um taura veterano

No tempo que se esvai no mate

O meu coração escarlate

Vagueia no mundo mundano

Varando várzeas, planuras e anos

Eu sempre fiz o mesmo braseiro

Para o chimarrão bem campeiro

Com o verde dos olhos dela

E um ventito fecha a cancela

Num facho de luar pampeiro

 

Levando a alma lavada

Nos riachos da primavera

Assobiando uma quimera

Diante da correnteza enluarada

E os olhos meigos da amada

Surgem na noite dolente

Encharcando a minha vertente

Porque fazem falta para mim

Um dia vai ser o meu fim

As dores que trago presente

 

O meu lenço é maragato

Desde os tempos dos avós

Este pañuelo é minha voz

Quando faço esse relato

Da minha essência vida de fato

Que o silêncio maltrata

Deixando a vida pacata

Nessa imensa pampa baguala

No aconchego rubro do pala

Recuerdos em noites de prata

 

E roda o meu universo

Nas voltas que o mundo vive

Muitas saudades eu tive

Pra cantar o último verso

Assim eu me despeço

E liberto a minha agonia

Trocando a noite por dia

Na campanha rumo solito

Cruzando o pago infinito

E enchendo a vida vazia


 

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