Última payada

O chimarrão que o maragato

Cevava na cuia morena

Descansando as chilenas

Pra sorver o verde regato

Que veio do tosco do mato

Mateando quieto e despacito

Com o olhar no infinito

Nos causos do seu silêncio

Manchou com erva o lenço

E chimarreou com seu piazito

 

E o guri cresceu assim

No gosto pelo chimarrão

Pra quem nasceu neste chão

Cevando mateadas em mim

Em largas proseadas sem fim

Nas vastas tardes da pampa

Quando o quero-quero canta

Na calmaria da terra gaúcha

Com a cuia feito garrucha

Identidade guapa que encanta

 

Quando o “Velho” anoiteceu

Num mês de maio fatal

Deixou de lado o buçal

Fez de conta que esqueceu

Todas as lidas que viveu

Com a cuia, bomba e sovéu

Cevou um mate com mel

E em silêncio foi embora

Batendo esporas na aurora

Em algum rincão do céu

 

Herança: a velha bomba

De alpaca e ouro folhada

Ficou um taura na invernada

Num dedilhar de milonga

Na tarde cada vez mais longa

Daquele mesmo domingo

Que cevei um mate antigo

E sorvi a Última Payada

Naquela bomba de alpaca

Que sempre carrego comigo

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